quarta-feira, 11 de maio de 2011

Antes que o dia comece



Cotovelos apoiados, em estado catatônico olhava o ralo da pia. Via a água da torneira funilando até sumir no escuro. Levantou o rosto e viu aquele que o contemplava sempre as 6:30 da manhã. Por um momento fixou os olhos na própria retina do olho esquerdo e não se reconheceu. Quem era? De onde vinha? Por uma fração de segundos sentiu-se fora do próprio corpo. Graças a Deus, raramente o automatismo, a canseira, a rotina lhe permitiam momentos estáticos e reflexivos como este. Melhor assim. Não gostava de ter que lidar com aquele “eu” aparentemente uno, porém multifacetado. Não se sentia a vontade observando as rugas dos seus dragões, sempre em fuga dos arpões obstinados em fisgá-los. Enfim mesmo desconfortável, convivia passivamente com seus monstros medíocres, tanto que nem se dava ao trabalho de mostrar-lhes a cara nas situações que exigiam. As vezes pareciam-lhe inofensivos de tão covardes. Mas em algumas noites, deitado em sua cama, refletido pela luz invasiva da tela, ou perplexo sob os desenhos do mofo do teto, um terror de tremer as juntas, lhe invadia. Demônios não domesticados, algozes cruéis da sua carne, insaciáveis por consumi-lo face a sua consciência irrepreensível e seus modos recatados. Se sentia uma farsa, um engodo. Um desejo incontrolável ardia-lhe o corpo. Sentimentos misturados. Medo, lacívia, angústia, prazer, ódio mágoa de si. E uma pergunta: Quem poderia livrar-lo do corpo dessa morte?

Nenhum comentário:

Postar um comentário