quarta-feira, 11 de maio de 2011

A chuva lá dentro...


O tédio era presença constante nesses dias chuvosos de verão. Sentou-se na cama e ficou longos minutos olhando para os próprios pés. Pensou: Onde já me levaram? Onde ainda posso ir? O rosto pesava-lhe nas mãos. Lembrou que precisava se barbear. Jogou o corpo pra trás e se deixou-se cair exausto sobre a cama. Agora olhava o teto, os pensamentos iam e vinham em contornantes devaneios, delírios de talvez ser um outro eu. Um outro mais ousado, menos arisco, menos silêncio. A coragem parecia-lhe um sonho, uma quimera distante. Coragem de ser ele mesmo, sem ter que dar muitas explicações. Pensava nas viagens que não fez, nos cafés que não tomou, nos prazeres que adiou. Tudo em nome dos outros e dessa casca que construiu em torno de si, essa casca, que chamava de identidade. O teto parecia rodar, teve ânsia de vômito, levantou num salto, mas a idade já não lhe permitia sustos. Caiu e foi invadido por um desejo insano de gargalhar de si mesmo. E riu tanto que chorou. E chorou tanto que calou...e calou tanto que escalou, escalou os lençóis da cama, retornou a posição fetal e pensou:
A chuva há de passar.

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