quarta-feira, 11 de maio de 2011

Expurgo


Olhou novamente a ampulheta desenhada no canto dos olhos e lamentou. Teve raiva de si mesmo, por ter sido tão tolo. Tristemente viu a porta aberta, e lembrou, de tantos que legitimamente, em nome do amor, entraram, usaram, reviraram suas coisas. E agora estava dissolvido naquele núcleo fechado, de laços estreitos no qual todos davam suas opiniões e eram ouvidos, menos ele. Sentiu-se traído, acuado, refém do sentimento fraterno que o ligava aquelas pessoas. Mas não podia mais permitir os acessos sem licença, mágoas “por amor”, gavetas abertas, segredos rasgados, pedidos reiterados de desculpas (destes estava farto). Precisava lembrar-lhes que ainda era alguém, que tinha seus próprios sonhos e muitos destes não os incluía, e precisava com urgência não se sentir culpado por isso. Olhou para o chão, pequenos pedaços de espelho refletiam seu rosto desconhecido. Quem é você? E antes que a resposta viesse, enquanto juntava com cuidado cada caco de si, foi surpreendido por um pequeno e pontiagudo pedacinho de espelho que cravou-lhe um dos dedos. Descia viscoso e quente o líquido da vida, foi invadido por um frio na barriga e por uma sensação maravilhosa de estar vivo. Aquele sangue era seu, só seu, com todas as plaquetas e glóbulos marcados pelo seu DNA, aquela dorzinha era sua, só sua. Não tinha dúvidas precisava gritar sua identidade única, sua individualidade, sua necessidade de ser ele, era só isso.

2 comentários:

  1. Muitas magoas da vida nao nos permitem seguir em frente,,,progredir,,,nos libertar,,,lindo texto,,,grande beijo de bom dia pra ti querida amiga,,,seja muito bem vinda...

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  2. Um grande beijo de bom dia pra ti querida amiga,,,

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