sexta-feira, 27 de maio de 2011

Transtorno Obsessivo Compulsivo


 Toc
Eu lembro sempre pra esquecer,
mas nunca esqueço de lembrar
de todo amor que agente fez
apenas pelo nosso olhar.
Eu tento sempre não lembrar,
mas é difícil esquecer
Se tudo ontem foi você
se tudo agora é só você
Eu tento sempre me lembrar
de não lembrar mais de você
mas eu não paro de lembrar
que eu não consigo te esquecer.
Eu faço tudo diferente
Eu fujo pra outro lugar
Mas onde quer que eu esteja
Tudo parece lembrar
Que tudo ontem foi você
que tudo agora é você

Mas amanhã, o que será?

Sandra Freitas

Dânama


Você
menina amando,
não ama nada, nem ninguém
gerúndio torto do nome
só ama seu próprio bem
menina amarga de doce
azeda, seca
e sem vintém
é pobre de alma e sozinha
da sua loucura é refém
coitada! é tão desgraçada!
tão feia!
tão dissimulada!
gorda de ódio,
ai que dó!
De amores morre de fome
só tem amor no seu nome
o seu destino
é ser só.

Sandra Freitas

Sinopse 09 - Pedaços


As vezes, é quando estamos em mil pedaços que descobrimos- nos mais inteiros.

Sandra Freitas

quinta-feira, 26 de maio de 2011

Medo

Tenho medo de não suportar essa dor que mina dos meus poros, qual goteira rixosa em casa velha. Tenho medo de não conter esse desejo que serpenteia minha carne, sempre que lembro das suas mãos tocando meu corpo. Tenho medo de jogar pela janela o pouco de razão que me sobrou, quando a miragem do teu olhar quente entra soturno pela minha janela. Tenho medo de rasgar o céu com as unhas, sempre que lembro que a vida nos quis assim: separados. Tenho medo da insanidade escondida no meu travesseiro, olheira das imagens lacívas, desenhadas pela nossa silhueta. Tenho medo de passar a eternidade sem entender, por que tenho medo de mim sempre que penso em você.

Sandra Freitas

quarta-feira, 11 de maio de 2011

Expurgo


Olhou novamente a ampulheta desenhada no canto dos olhos e lamentou. Teve raiva de si mesmo, por ter sido tão tolo. Tristemente viu a porta aberta, e lembrou, de tantos que legitimamente, em nome do amor, entraram, usaram, reviraram suas coisas. E agora estava dissolvido naquele núcleo fechado, de laços estreitos no qual todos davam suas opiniões e eram ouvidos, menos ele. Sentiu-se traído, acuado, refém do sentimento fraterno que o ligava aquelas pessoas. Mas não podia mais permitir os acessos sem licença, mágoas “por amor”, gavetas abertas, segredos rasgados, pedidos reiterados de desculpas (destes estava farto). Precisava lembrar-lhes que ainda era alguém, que tinha seus próprios sonhos e muitos destes não os incluía, e precisava com urgência não se sentir culpado por isso. Olhou para o chão, pequenos pedaços de espelho refletiam seu rosto desconhecido. Quem é você? E antes que a resposta viesse, enquanto juntava com cuidado cada caco de si, foi surpreendido por um pequeno e pontiagudo pedacinho de espelho que cravou-lhe um dos dedos. Descia viscoso e quente o líquido da vida, foi invadido por um frio na barriga e por uma sensação maravilhosa de estar vivo. Aquele sangue era seu, só seu, com todas as plaquetas e glóbulos marcados pelo seu DNA, aquela dorzinha era sua, só sua. Não tinha dúvidas precisava gritar sua identidade única, sua individualidade, sua necessidade de ser ele, era só isso.

A chuva lá dentro...


O tédio era presença constante nesses dias chuvosos de verão. Sentou-se na cama e ficou longos minutos olhando para os próprios pés. Pensou: Onde já me levaram? Onde ainda posso ir? O rosto pesava-lhe nas mãos. Lembrou que precisava se barbear. Jogou o corpo pra trás e se deixou-se cair exausto sobre a cama. Agora olhava o teto, os pensamentos iam e vinham em contornantes devaneios, delírios de talvez ser um outro eu. Um outro mais ousado, menos arisco, menos silêncio. A coragem parecia-lhe um sonho, uma quimera distante. Coragem de ser ele mesmo, sem ter que dar muitas explicações. Pensava nas viagens que não fez, nos cafés que não tomou, nos prazeres que adiou. Tudo em nome dos outros e dessa casca que construiu em torno de si, essa casca, que chamava de identidade. O teto parecia rodar, teve ânsia de vômito, levantou num salto, mas a idade já não lhe permitia sustos. Caiu e foi invadido por um desejo insano de gargalhar de si mesmo. E riu tanto que chorou. E chorou tanto que calou...e calou tanto que escalou, escalou os lençóis da cama, retornou a posição fetal e pensou:
A chuva há de passar.

Antes que o dia comece



Cotovelos apoiados, em estado catatônico olhava o ralo da pia. Via a água da torneira funilando até sumir no escuro. Levantou o rosto e viu aquele que o contemplava sempre as 6:30 da manhã. Por um momento fixou os olhos na própria retina do olho esquerdo e não se reconheceu. Quem era? De onde vinha? Por uma fração de segundos sentiu-se fora do próprio corpo. Graças a Deus, raramente o automatismo, a canseira, a rotina lhe permitiam momentos estáticos e reflexivos como este. Melhor assim. Não gostava de ter que lidar com aquele “eu” aparentemente uno, porém multifacetado. Não se sentia a vontade observando as rugas dos seus dragões, sempre em fuga dos arpões obstinados em fisgá-los. Enfim mesmo desconfortável, convivia passivamente com seus monstros medíocres, tanto que nem se dava ao trabalho de mostrar-lhes a cara nas situações que exigiam. As vezes pareciam-lhe inofensivos de tão covardes. Mas em algumas noites, deitado em sua cama, refletido pela luz invasiva da tela, ou perplexo sob os desenhos do mofo do teto, um terror de tremer as juntas, lhe invadia. Demônios não domesticados, algozes cruéis da sua carne, insaciáveis por consumi-lo face a sua consciência irrepreensível e seus modos recatados. Se sentia uma farsa, um engodo. Um desejo incontrolável ardia-lhe o corpo. Sentimentos misturados. Medo, lacívia, angústia, prazer, ódio mágoa de si. E uma pergunta: Quem poderia livrar-lo do corpo dessa morte?

Chão de fábrica.



A mente era uma máquina de produção em série. Produzia pensamentos na velocidade da luz. Passeava por lugares, abraçava pessoas, gritava com algumas, chorava com outras. Era poeta, professor, chefe, escravo, algoz. Era tudo e nada.  Podia ganhar do céu  um crédito de um milhão. Mas o que fazer com tudo isso? Ajudar a vó, as tias. Comprar um sítio pra mãe. Internar a irmã....como? O pensamento ria de si mesmo. Não. Amá-la já era suficiente.
E se fosse dono da empresa, e se pudesse sair mais cedo? Compraria um carro novo, mas não venderia o velho (relação de amor e histórias). Precisava de roupas novas. A calça jeans estava muito surrada. Umas camisas talvez. E se mudasse o jeito de vestir? E se fosse mais leve? Quem sabe uma tatuagem? Nada extravagante. Uma rosa pequena no antebraço. Não. Muito feminino. Uma insígnia? Que nada. Melhor esquecer, lembrou do pânico que tinha das agulhas. Recalculou os próprios movimentos, saiu de si e olhou-se bem, como um psicólogo que deve fazer uma análise  um pouco mais que apenas comportamental. Era feio, estava velho, um pouco fora de forma, poucas perspectivas, algumas frustrações, inúmeras perguntas, nenhuma resposta. Após empacotar cada pensamento na maneira padrão concluiu com a etiqueta: Sou louco, graças a Deus!

Reencontro


Anseio pelo dia prometido
no tempo em que ainda éramos
brisa leve.
Anelo subir a montanha
Rumo a nossa casa branca,
de varanda para o sol..
Já sinto o cheiro da terra molhada
avisto os girassóis na janela
E nossos bichos correndo soltos pelo terreiro.
Subo cansada, já não tenho fôlego como no dia em que te prometi.
Meus ossos doem,
mas não me canso de subir.
Ouço o cantar das aves
celebrando minha chegada
Te avisto na entrada
E ando em tua direção
não preciso correr,
agora o tempo há de esperar
Vejo suas cãs esbranquiçadas
seu olhar turvo, como que me reconhecendo
Sim meu amor, sou eu..
Toque- me pra teres certeza.
Me aproximo e te abraço
Nosso abraço esperado
De tantos anos,
De tantas vidas,
De tantas eras,
Suas mãos deslizam em meu rosto
procurando aquela bela de outrora,
Descem por meu corpo envelhecido
tocam as marcas que o tempo deixou.
E beija cada uma com carinho.
Dentro delas nossas lembranças, nossos anseios
nossos desejos.
Veja meu amor, imagens da nossa história impressas nessas rugas.
Sinto o cheiro do café fresco.
Tomo-te pelo braço e adentramos a nossa casa.
O sol está indo devagar,
Um vento frio abraça nosso ninho,
Os anos cruéis se passaram
Mas ainda guardei um pouco de calor pra você
Venha que a vida acaba de começar...

Sandra de Freitas

segunda-feira, 9 de maio de 2011

Sinopse 08 - Estampido


Constatação:
Em todos nós há um poeta adormecido, que acorda com o estampido do seu próprio coração.

Sandra Freitas

Sinopse 07- A Paz


O Homem plenamente reconciliado com Deus, reconcilia toda adversidade a sua volta, incluindo ele mesmo.
(Sandra Freitas)

Sinopse 06 - Feliz




Não tenho tempo de ter raiva de você,
por que ando ocupada demais
sendo feliz.....

Sandra Freiras

Sinopse05- Ainda Poros


Toda vez que seu corpo arrepiar, sou eu tentando sair pelos seus poros.
Sandra Freitas

Sinopse 04 - Perfeição




Quando penso que me alcancei, fujo correndo de mim!
É e essa busca em me alcançar que torna a vida tão divertida.

Sandra Freitas

Sinopse-03 In/tensa



Minha intensidade é tão inquieta
que quando acordo, sinto que escapei-me
pelos poros durante a noite.

(Sandra Freitas)


Para minhas amigas poetas, tão intensas como eu..
Bjokas

Arquivo Pessoal


Os lençóis de seda dos meus sentidos
afagam cada uma de suas palavras.
E quando audível leio suas reticências
é aí que encosto minha face
e sinto seu rosto no meu.
E vejo meu sangue no seu
Se eu te fiz fazer poesia
foi talvez a maior alegria..
costurar minhas e suas palavras
enlaçadas, unidas, bordadas..
sempre em busca da terra do nunca..
Cada sílaba, jóia rara..
mescla da nossa emoção
riso, medo, choro, saudade,
adormecidos em nós/ coração.

Sandra Freitas

Insônia

Aperto os seios flamantes,
calo o sexo entre as pernas,
pra abafar meus gritos de desejo.
Então você ouve meus apelos
e vem em sonhos curar a minha febre,
calar meus gemidos,
tomar meus sentidos,
e finalmente adormeço,
enquanto meus poros
sussuram seu nome
como uma prece.

Sandra Freitas

Sinopse 01- Silêncio

"QUEM CONHECE BEM MINHAS PALAVRAS, SABE O PESO QUE TEM MEU SILÊNCIO."

SANDRA FREITAS

Pra você


Te vejo partir
Sorrio amarelo
Vou deixar que você vá
Que beba de outras fontes,
Que cheire outras flores,
Que viva outros amores,
Que sonhe em outras camas
e goze entre outras pernas.

Mas você vai voltar
pra morrer em mim.
Por que eu sou a sua casa
Morada eterna do seu amor
Habitação perpétua do seu desejo.
Sou seu túmulo,
Sua lápide,
Seu descanso,
Seu fim.
Por isso, parei de chorar
pois seu lugar é em mim.

Sandra Freitas

Sinopse 02 - Só nós

Estranhamente, as vezes eu prefiro o aperto dos nós à beleza dos laços, talvez por que estes ainda que belos se desfazem mais facilmente..
Eu + você, nós.

(Sandra Freitas)

Retorno

Foi um grito rouco
que desatou o nó da minha
Alma...
Mas não ouviste
Partiste levando
Meus sonhos
Vesti-me em luto
Morri várias vezes
a cada manhã.
Desejava uma lápide gélida
E uma porta aberta ao infinito sombrio.
Mas a morte também se foi..

Ressequida
Desgrenhada
Andava despida pelos pastos
Até que um olhar
Pousou sobre mim.,
Pediu-me hospedagem
Fechei-me e menti
Deixei que ficasse
Mas nunca cedi..
outonos , invernos
Cizentos hostis passaram
levaram os laços ardis.
Sorria de dia, chorava de noite
E o mais improvável:
Eu sobrevivi.

Sandra Freitas

Te espero

Vou deixar meu rastro
no silêncio, com cheiro
daquela flor da noite que você adora, pra você seguir.
Vou sumir pra aquele ponto no infinito
onde nossos olhares se encontram
Te esperar naquela cama
Onde seus sonhos desposam os meus..
Abraçada aos lençois
Onde os suspiros são todos teus...
E vou esgotar o hoje em orgasmos múltiplos
pra que o futuro chegue breve me trazendo você...
Vou embrulhar o ontem num papel de seda
pra nós abrirmos juntos quando o dia amanhecer..
Mas vê se não demora
eu só posso esperar
por toda vida.....

Sandra Freitas

Lembretes



É hora de lavar as mágoas com as lágrimas estocadas.
Hora de avançar e de seguir.A ordem é não parar, não lamentar. É prosseguir.
Mover mente, corpo e alma. Num leve gesto de mãos retirar a poeira da palavra “eu”. Esperar pouco dos outros e o necessário de si.
Valorizar os olhos, os próprios olhos que abrem portas para o infinito. Amar as próprias curvas, os declives, os aclives. Agradecer o Tempo pela generosidade das experiências e da beleza marcada nas próprias rugas.
Limpar a casa. Tomar um vinho. Cozinhar para os amigos. Ler aquele livro.Tomar um café em gostosa companhia.
Se entregar ao ócio por pura contemplação, nem que seja por alguns segundos.
Passar a marcha e seguir em frente, mas nunca esquecer de olhar no retrovisor de vez em quando, só pra não machucar ninguém.


Sandra Freitas.

Capitu as avessas..



Eu nasci com fome de vida. Fórceps. Queria sugar até a última gota da
minha mãe. Tinha olhos azuis da cor do céu, grandes vitrais da minha pequena essência. Depois de um tempo fui menina de olhos verdes, profundos e intensos, de pura contemplação e absorção.
Agora meus olhos são cor de mel, e têm essa mania de avidez, devoram tudo que vêem, que lêem. São famintos o tempo todo. Não se saciam de luz, de cores, de vida. Não são olhos de ressaca, são de tempestade, de vulcão.
Mastigam e engolem. O estômago dos meus olhos é a alma. E é nela que tudo é digerido. Metabolismo intenso, porém lento. Não por causa do alimento, mas da complexidade do órgão. Foi assim quando pus meus olhos em você. E quanto mais te vejo, mais meus olhos te procuram, mais te querem famintos, mais te levam pra minha alma que digere a sua imagem em minúcias até que toda a sua substância se torne comigo um único ser. E eu possa te ser, me ser, ser nós.

Sandra Freitas.

Meu nome é mulher


Amanheço riacho manso
Águas límpidas descendo a serra
Tão logo curvo o monte
me torno em turbilhão.
Assolo, removo a terra,
desço lambendo a plantação,
borbulho sentimentos,
emoções cativas,
esfrio, aqueço,
chovo lava de vulcão.
Não caibo em mãos,
nem olhares
grito brisa,
cochicho trovão.
Sou fúria em versos
que escorrem,
das águas do meu coração.

Sandra Freitas

O Cego e a musa


Olho-me pelas frestas
de luz dos seus olhos.
Você vem sedento
aumentar a minha chama
pequena e tímida ao toque
dos seus lábios.
Em meu corpo lições
de amor em braile,
lidas pelas pontas dos seus dedos,
meu segredo Bocaccio sabe:
Entra o fogo, sai o medo.

Mas é cedo meu amor,
Em mim há
muitos versos escondidos,
poesia gritando pra ser lida..
Vem! precisaremos de mais tempo.
Mais do que uma noite,
Mais do que mil vidas.

Sandra Freitas

O Amor

Ah o amor! O amor é mesmo uma coisa horrível, feia mesmo, mas todo mundo quer. Devia vir com um rótulo de advertência : “Cuidado! Perigo!”
Seguramente você já foi ou será fisgado por ele. E quer saber?
Primeiro ele vai te deixar com cara de idiota, depois vai destruir seu coração, e você terá dores por todo o corpo, a dor é tão aguda que é como se tivessem lhe amputado uma perna ou um braço. Terá certeza absoluta que sem “aquela” ou “aquele” você vai morrer.
A saudade vai tentar te asfixiar. Você vai chorar por muitos dias, vai emagrecer ou engordar assustadoramente, nem vai se reconhecer.
Mas acalme-se! O tempo vai passar e você vai aprender a viver com isso. Outras pessoas virão e você vai até gostar de alguma delas. Entretanto AQUELE amor será como uma ferida que deixou uma grande cicatriz. Você vai viver com ela, mas não vai doer mais. Porém toda vez que olhar para aquela marca, todas as lembranças virão a tona. E quando começar a lembrar vai ficar com cara de idiota de novo, mas tudo já vai ter acabado e “aquele” ou “aquela” vai sempre ocupar um espaço especial na sua vida, por ter sido “ele” ou “ela” quem te feriu mais profundamente, quem te ensinou o quanto o amor pode ser deliciosamente perigoso.
Não tenho medo de dizer que o amor é algo horripilante, faz agente se comportar de maneira estranha, o amor é feio mesmo, só não é mais feio que o coração de quem nunca amou.


Sandra Freitas.

Segredos


Sou teu jardim fechado,
manancial recluso,
fonte selada.
Nem um outro
soube meus segredos
ou o sabor das minhas
águas.
Virginais aromas flutuam
em meus umbrais.
Odes celestiais adornam
meus arredores.
Meu claustro
é sagrado
não há pedras
nem espinhos.
Apenas o cheiro divinal
do amor que te segredo
diariamente durante a noite.
Cada segundo de espera
ao longo dos anos, das eras
fez só aumentar meu amor por ti.

Eu sou do meu amado
e ele é todo meu.

(Sandra Freitas)

Marcas


No crepúsculo dourado
A luz do sol
Invade meu corpo quente e nu.
Delirante me observo:
Desconstruções perdidas
Nas pegadas que há em mim.
Umas qual rastro na areia
Levadas por brumas sem fim.
Outras marcadas a ferro
na carne e na memória.
Recordações de uma vida
traços da minha história.
Ainda que doloridas
valeram-me as pisadas...
Florescerão no futuro
em estoques de risadas..
Mas de todas as marcas que vejo
Uma só me definha
É a mais profunda delas
É exatamente a minha.

Ao longo da vida muitos deixarão suas marcas em nós. Entretanto nenhuma delas será tão profunda como aquelas feitas por nós mesmos, sinal de contentamento ou pesar, que inevitavelmente contarão nossa história.


(Sandra Freitas)

sexta-feira, 6 de maio de 2011

Nós

Não há vazios em nosso vocábulo.
Nem solidão.
Nem sós.
Apenas nós.
Nós atados em nós.
E se acaso não sou eu a imagem expressa
em carne e osso,
é meu, esse perfume que permeia o
ambiente e te enlaça o pescoço.
Sou eu a tocar de leve suas mãos.
Sou eu refletida nos olhos das outras.
Sou eu a chama que agora parece
derreter-te a alma.
E ainda quando a
dança eterna me conduzir
ao grande baile, ornada em rosas
vermelhas
e velas funestas,
não te assustes meu amor
serei eu, estilhaços de sonhos
fragmentados nessa lágrima
que teima em rolar e
morrer em seus lábios.
Sou eu em ti,
sem sós
só nós.

Sandra Freitas

Fração


Metade de mim é faminta
Metade só vive em jejum
Metade de mim é do mundo
Metade de lugar algum..
Metade de mim é loucura
Metade de mim é razão
Metade de mim é serena
Metade de mim é vulcão...
Metade de mim não é nada
Metade de mim é alguém
Metade de mim é amor
e a outra metade também..

Sandra Freitas

Torturas



Assédio da saudade,
Golpes do tempo,
Flagelos das estações.
Descompasso.
Hematomas, resquícios
das torturas ardilosas.
da espera interminável.
Algemas do hoje.
Açoites da distância.
Passado e presente,
perfurações das lâminas
dos desencontros.
Desidratado,
Faminto,
machucado,
.....mas esse amor contumaz
se recusa a morrer..

Sandra Freitas

quinta-feira, 5 de maio de 2011

Pedido

Se eu te ignorar,

me ligue.

E se eu me irritar

entenda...

Se eu quiser brigar

se afaste...

Se te abandonar

me siga.

E se te perder,

me ache.

Se eu me entristecer,

me abrace.

Se eu silenciar

me beije..

.....que é pra eu não morrer.





Sandra Freitas.

Verossimilhança


Dor lancinante
vibra como
onda quebrando nas marés.
Dor/mente minha alma
se recusa a sair do cárcere,
atada ao vapor da ausência
a fome da presença,
que no vento nunca passa..
Mente o dia, mente a noite
A lua também mente
Mas a dor que alma sente
É de amor deveras/mente.

Sandra Freitas

Ocultas mágoas ( Inspirado em poema de Marilândia)



Se perguntarem
por minha descrença
explícita,
por minha aparência lívida
e minha palidez escancarada.
Direi: Foi sua ingratidão
sussurrada em meu ouvido,
seu abandono gritante
em minha alma
que deixou a
minha boca desbotada.

Sandra Freitas.

Fim


Sinto-me cansada
minhas forças se esvaem
nem lágrimas me caem...
Afadigada na alma
ressequida por esforços repetitivos
minha constatação:
Recolher-me
Recuar...
Enclausurar palavras e verbos
Saborear a morte a gangrenar
o sangue em minhas
veias....
Agradecê-la por nos
tornar iguais...
temperatura caindo...
vertiginosamente...
frio enrijecendo os músculos
coração em pausas..
palidecendo muda...e gélida
Enfim. o fim do fogo...

Sandra Freitas

Reminiscência


Ficou o seu cheiro em mim
Ficaram anéis dos teus cabelos
enroscados nos meus dedos.
Ficou o gosto doce do beijo eternizado
ficou o calor do teu peito
impregnado em minhas mãos.
Ficou o gozo estancado,
o gemido guardado.
O que nunca houve
Ficaram as muitas promessas
Sonhos a dois
Noites de amor
Talvez pra amanhã
Quem sabe .. depois..

Sandra Freitas

Amorragia


Eu queria acreditar
Que é verdade..que esse amor
residente, morador de mim
é o mesmo que te abraça
e que transborda nessas
lágrimas lentas que rolam
de ti..
Eu queria acreditar
que esse amor
vai voltar a nos embalar
naquela nuvem doce
dos nossos desejos...
mas vejo minha fé se esvair
com o sangue
incessante
da chaga aberta
em meu coração.

Sandra Freitas.

Maldição de Eros


Me apago,
recuo,
Me afasto
Me oculto
Sou flôr
Carnívora
No cio
Espinhos
Que sangram
Dentes que se afiam
Sou bem
Que só faz mal
Sou mal
que só quer bem.
Sou abraço que sufoca
Beijo que mata
Afago que
Envenena..
Olhar que contamina
Te ver feliz
de longe...
É minha sina..
..minha sina..

Sandra Freitas.

quarta-feira, 4 de maio de 2011

Água amarga

Sua boca foi caminho
pra calores e arrepios
e agora é só silêncio
infestado de espinhos.
Essa boca que
embriaga,
me enlouquece
que me afaga,
que encurtou tanta distância,
doce fel das minhas chagas...
nessa boca só passado.
dessa boca só lembranças..

(Sandra Freitas)

Desatino de 5ª

Prendi o cabelo
Tirei o batom
Por fora o sorriso amarelo
máscara do ofício.
Por dentro
Choro e dor...
Tristeza desmedida
vontade de viver
escapando pelos dedos
Nada faz sentido..
Só a morte
Branda e doce
Me convida pra uma valsa
E hoje me apetece
Jogar-me em seus braços
Lânguidos e frios..
Fim do tormento
Noite infinita.
........................mas uma tênue chama
continua a queimar.... tendo em minhas lágrimas
seu combustível...


(Sandra Freitas)

A Deus...(saberá)

Estou indo de ti,
nas novas mãos
que te acariciam o rosto,
a barba desgrenhada.
Estou indo,
a cada enroscar desses
outros dedos nos anéis dos teus cabelos..
Estou indo
quando essa nova face encosta na tua...
Estou indo de ti
no tom dessa voz
que não é a minha.
indo lentamente
quando te veste nesse outro corpo
que não é o meu..
e se despe do meu corpo
que só veste o teu..
Estou indo
Pra algum lugar que
não sei onde...
Mas que importa?
Estou indo..
Para um ponto qualquer no infinito..
E se ficou algo de mim em você
me perdõe..

Sandra Freitas

Partida


Show
Rock/metálico/
Progressivo
Existe?
Sei não.
Pessoas
Tatuadas
Penduradas
Agitadas
Auge
Som
Decibéis.
Nada.
Trânsito
Moto
Carro velho
Carro novo
Briga
Buzina
Palavrão
Ondas que se propagam
Tudo.
Nada.
Nada
perto do barulho
da ausência que ficou em mim.

Sandra Freitas

Mergulho

Eu que sou seca,
Oca ao avesso,
Transtornada,
ácida e ríspida
Vejo em mim
aflorarem todos
os instintos maternos
quando miro
esses seus olhos de absinto..

(Sandra Freitas)

Limpando a casa

Abandonar sonhos, esquecer as frases de amor sussurradas ao som do vento, enterrar o velho baú das ilusões e abandonar esse jeito adolescente de achar que sempre haverá final feliz. Minha cabeça de mulher madura dói a três dias .. meu tolo coração é apenas um órgão emperrado em um tempo que se perdeu.

Tantos sóis já se passaram e a minha dor se torna cada dia mais jovem. Eu só queria um quarto escuro onde pudesse trancá-la até que morresse de inanição. Por que aqui fora é sua existência que lhe dá refeições diárias. Ou será que sou eu que permito essa dieta infernal? Ah.. como eu gostaria que você morresse, ao menos que deixasse de viver dentro de mim...Por que enquanto tomo minhas doses habituais de morfina os programas políticos são os mesmos, os times ganham e perdem, o sol se põe e nasce outra vez e você continua seguindo. "Eu" mulher balzaquiana aplaude e vibra, mas "eu" coração senta e chora. E ainda um terceiro "eu" te odeia como jamais odiou alguém. Ah..! Quantas mulheres habitam nessa carcaça? Não sei. Mas em todas ficou o sabor da sua passagem. Um sabor amargo e suave ao mesmo tempo. Agora a essas alturas do campeonato tomo uma decisão estranha, por fim a essa Síndrome de Estocolmo... mesmo que a névoa dessa manhã não me permita a clareza de entender quem é refém de quem....O fato é que gestar novos sonhos requer útero vazio...e abortar os sonhos antigos é dolorido, mesmo sabendo que já estão mortos.

Sandra Freitas.

In/sensatez

Delicias banqueteavam-nos
quando discretamente loucos
dávamos as mãos e seguíamos
no encalço desse amor descabido.
Amor desprovido de razão,
que jamais respeitou regras ou convenção.
Mal- educado...
Atrevido..
Fez de si senhor do tempo
tornando-se seu algoz.
Contumaz,
Insubmisso,
que distraído preparava-nos diariamente
surpresas inimagináveis...
incabíveis nas formalidades,
desprovidas de verdades.
Apenas amor por si,
insanamente maravilhoso.
Até que você recobrou a razão..
e na sua crise de lucidez
acorrentou o nosso amor na
masmorra do esquecimento.

Sandra Freitas

A porta

Hei de fechar a porta
aberta por tantos anos
que me conduz a memórias
e história de prazer indelével...
Hei trancá-la , ainda que me custe
dores e lágrimas e dissabores
pela impossibilidade de trilhar os caminhos
que ela me aponta..
Hei de dizer adeus a tantas noites tórridas
de amores e calores, viagens em cometas,
partos de estrelas,
acalentados pra depois de amanhã..
Hei de fechá-la e estancar os soluços
que escorrem riachos do meu coração fragmentado..
hei de trancá-la ...

...Mas você engoliu as chaves
...que dissolveram-se no seu sangue.

Sandra Freitas.

Petição de inverno


Abre a porta meu amor,
que o vento cortante do inverno
tem sido meu algoz
na caminhada.
Minha chama quase se apaga.
Tenho luz nos dedos
pra tocar teu coração
E um bocado de lenha
pra aquele banho a dois.
Não deixemos pra depois.
Abre a porta meu amor
Que o tempo está a passar
No ímpeto de nos deixar
frios e sós.
Quero teus nós a me apertar
que a brasa que há em ti
sozinha não há de durar.
Não se feche de mim
Embora eu tenha errado,
E muito te magoado,
Se não nos unirmos
nos incendiarmos
morremos os dois
assim separados....
morremos nós dois
assim congelados..

Sandra Freitas

Tatuagem


Tenho um céu tatuado no corpo
estrelas e planetas desenhados
Cada ponto de luz, uma lembrança
colorida com as tintas do passado...
Em um tempo que eu voava
que eu amava
sem ter medo...
Cada uma recheada
contornada de desejo...
Todas elas perfuradas
com a ponta dos teus dedos...
E nas noites em que a lua é escura,
eu despida me observo no espelho
e me vejo uma mulher bem mais segura
satisfeita em ser marcada por segredos..
Todo céu em mim celebra uma festa,
abrigado no meu corpo paraíso
as estrelas ensaiando uma seresta
em constelaçoes mostrando seu sorriso...

sandra Freitas

Cópula


Dejetos de amor

Cacos me rasgam

Invadindo meu óvulo

Copular profundo...

E me fecundo em mim

sem dizer nada

E nasço a versejar

Dizendo tudo...


Sandra Freitas

Real

Suas palavras
ainda que poucas,
escassas,
proferidas
entre intermitentes pausas,
endossadas por longas
horas de silêncio,
trazem em si
um perfume
único,
mistura
de todos
os anos
que adormecemos
estrelas.
Anos sonhados
não concretizados...
mas tão reais
como a carne
e os ossos que sustentam
minha mão ao transcrever
essas míseras emoções...

(Sandra Freitas)

Poeminha de desprezo

Seu cuidado,
É comigo?
É contigo?
Ou com ninguém?
Afinal, o seu resguardo
É pra ela?
Ou pro seu bem?
Tão contido,
Tão correto
Quem é esse?
Que se atem
Aos princípios,
As maneiras,
De não se amar ninguém.
Desse jeito só me afastas
Me aborrece,
Seu descaso,
Me injeitas delicado
Abominas meu abraço.
No futuro, só lamento
Se arrependes do teu laço,
não fizeste outra coisa
a me dar em outros braços.


Sandra Freitas

A queda

Do salto dos ares
Engelando os pulmões
Estrelas e aves
Despedem-se em tom fúnebre
Esbarro em limbos e cúmulos alvos...
Chão abaixo dos pés
Poeira engendrando os passos
De ossos e carne, nua e crua..
Espreito o reflexo em seus olhos
Sinal evidente da decepção...

Me perdoe
Por cantar fora do teu tom
Sem dispensar o batom
por rasgar os desenganos
por possuir outros planos
que não se encaixam aos seus..

Me perdoe
Por não calar aos meus ensejos
Não atender os seus desejos
Ser menos você e mais eu...
Me perdoe
Por perder o ar que encanta
Por não ser nenhuma santa
Por exigir o que é meu..

Me perdoe
Ainda que nesses versos
Te leve em meu coração
Mas nesse grande universo
Somos retas paralelas
caminhando em contra-mão..

Me perdoe
Por ser tão realidade
E te falar a verdade
Nua como ela é
Se eu nunca estive entre santos
Se eu não sou mais o teu anjo
Se sempre eu só fui mulher

Sandra Freitas

Despedida

Houve um tempo
em que sentávamos
no chão..
....assim de pernas abertas
sem ritos ou convenção...
e ficávamos eras desenhando
nossos sonhos no papel..
trocávamos as cores
os lápis e as tintas...
lembra?
Tão solidários e felizes.
Mas agora você está tão maduro
bem vestido,
inalcansável...
E eu aqui solitária,
me escapam os desenhos,
me fogem os sonhos..
e uma pilha de folhas
pra colorir...
sobraram alguns tocos de lápis
por certo devem servir..
Mas ainda pergunto
quando foi que
te deixei crescer
e distraída não te vi partir...?

Sandra Freitas

Pra sempre


De repente
o silêncio atrevido
interrompeu
nossa conversa,
gritando em nossos
olhos
e sufocando a sua boca
na minha..
eternizando
o mais doce
tormento
das
minhas
lembranças...

Sandra Freitas

Como Elisa


Já disseram-me uma vez
Nunca fite seu olhar
Ela vai te seduzir
Vai te hipnotizar
Vai fazer-te seu escravo
Vai tornar-lhe seu capacho
Apenas com um olhar.
Se te fala ao pé do ouvido
te estremece a libido.
Gostosa persuasão .
Apenas com aquele andar
té infarta um coração...
Como pode se entregar?
Sem ressalva e restrição
Como pode descuidar
Você perdeu a razão?.
Não se pode confiar
em quem te provoca gemidos..
não é certo acreditar
em quem tem sexto sentido.
Como pode afagar
alguém que a dor compreende?
Como pode abraçar gente que carrega gente...
Ouça o que diz *Elisa :

Cuidado moço menino
Ela é mesmo irmã da lua,
não se pode confiar
nessa gente que menstrua...

(Sandra Freitas)


(*Elisa Lucinda/Texto: Aviso da Lua que menstrua.)

Taquicardia Noturna


Nas entrelinhas de mim
sombras de uma ilusão..
inundam-me os olhos,
encharcam a íris,
umedecem a cama
da minha razão

Aquieta coração..
não és de todo sonho
és carne também...
lembra que meu corpo
padece...a idade me corrompe
as cãs envelhecem
desaprendi a contramão,
aquieta coração
pra que vivamos mais...
Sossega, e durmamos em paz..

(A minha vó Arlinda, que me ensinou tanto sobre o coração..mas me advertiu que algumas liçoes eu teria que aprender sozinha...
te amo vovó)

Sandra Freitas